segunda-feira, 1 de junho de 2009

HISTÓRICO DO MOVIMENTO APAEANO


As Associações de Pais e Amigos dos Excepcionais, presentes no Brasil há cinco décadas constituem-se hoje no maior movimento social de caráter filantrópico do país, na defesa de direitos e prestação de serviços visando proporcionar qualidade de vida, promoção e inclusão social da Pessoa com Deficiência.
A primeira iniciativa no Brasil ocorreu no Rio de Janeiro em 1954, liderada pela senhora Beatrice Bemis, membro do corpo diplomático americano e mãe de uma criança com Síndrome de Down que, com outras famílias, viviam o drama de não encontrarem escolas para a educação de seus filhos.
Em 1955, no Rio de Janeiro, com o apoio da Sociedade Pestalozzi do Brasil, começou a funcionar a primeira escola de APAE para crianças com deficiência.
Segundo Magalhães - et al., 1997, no período de 1954 a 1962 foram criadas 16 APAEs no Brasil. Devido à necessidade de troca de experiências, divulgação e padronização de terminologias e planejamento, realizou-se em 1962, em São Paulo, a 1º Reunião Nacional de Dirigentes Apaeanos, presidida pelo Dr. Stanislau Krynsky.
Assim, pela primeira vez no Brasil, discutiu-se a questão das Pessoas Deficientes, com técnicos e familiares, que traziam para o movimento suas experiências como profissionais e como pais.
Para facilitar a articulação e a troca de idéias, os participantes da reunião constataram a necessidade de se criar um organismo nacional. Nesse sentido, no dia 10 de novembro de 1962, foi fundada a Federação Nacional das APAEs, tendo como primeiro presidente da diretoria provisória eleita o Dr. Antônio dos Santos Clemente Filho.
Em 1963, realizou-se o 1º Congresso da Federação Nacional das APAEs, na cidade do Rio de Janeiro, ocasião em que foi aprovado o estatuto e eleita a primeira Diretoria da Federação Nacional das APAEs, que teve na presidência o Dr. Antônio Clemente dos Santos Filho (Santos Filho, 1997).
A Federação Nacional das APAEs adotou como símbolo a figura de uma flor margarida ladeada por duas mãos em perfil, desniveladas, uma em posição de amparo e a outra de orientação à Pessoa Portadora de Deficiência (Magalhães . et al, 1997; FENAPAEs/ Projeto Águia, 1998).
Atualmente o Movimento Apaeano está estruturado em quatro níveis:
· Federação Nacional das APAEs, responsável pelos rumos, diretrizes e estratégias do Movimento Apaeano e pela articulação política, defesa de direitos e ações, em âmbito nacional, em atenção à Pessoa com Deficiência.
· Federações das APAEs nos Estados, responsáveis pelos rumos,diretrizes e estratégias do Movimento Apaeano e pela articulação política, defesa de direitos e ações, em âmbito estadual, em atenção à Pessoa com Deficiência.
· Conselhos Regionais das APAEs, com a função de organizar as APAEs nas microrregiões, orientando seus rumos e sendo o contato direto entre a base e a Federação das APAEs do Estado.
· APAEs nos municípios, prestadoras de serviços e atendimentos diretos, articulação e defesa de direitos da Pessoa com Deficiência nos municípios.

HISTÓRICO DA APAE SANTANENSE

Um grupo de santanenses liderados pela Senhora Alice de Abreu Campos fundaram a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais, no dia 10 de maio de 1964.
A sede provisória numa das dependências da Hidráulica Municipal, cedida pela Administração. Somente em 1968 foi possível a aquisição de um imóvel.
Em 1974 assumiu a presidência da APAE o Sr. Horácio Sebastian Devitta, quando houve a integração da APAE com a Escola Especial Earl Carlson, então presidida pelo Dr. Remígio Antônio Amorim.
Foi necessária a integração por haver na comunidade duas instituições trabalhando separadas, com a mesma finalidade.
A APAE passava a assumir a responsabilidade da Escola Especial, com a orientação e supervisão Pedagógica da 19ª DE.
O Parecer nº. 15/ 82, do Conselho Estadual de Educação autoriza o funcionamento da Escola Particular de 1º Grau Incompleto Caio César Beltrão Tettamanzy, de Sant’Ana do Livramento, mantida pela APAE, para educação especial, sob a jurisdição da 19ª DE.
Conforme Portaria nº. 7941 de 06/04/1982, face o Parecer 15/82, foi autorizado o funcionamento da Escola Particular de 1º Grau Incompleto Caio César Beltrão Tettamanzy, que tem por finalidade proporcionar atendimento a alunos portadores de Deficiência Mental e/ ou Deficiência Múltipla.
Em 02 de agosto de 2000, foi expedido pelo Conselho Estadual de Educação o comprovante de Cadastro de Entidade Mantenedora do Estabelecimento de Ensino, sendo cadastrada sob o nº. de matrícula 535, como entidade mantenedora do seguinte Estabelecimento de Ensino: nº353 001 – Escola de Educação Especial Caio César Beltrão Tettamanzy, de Sant’Ana do Livramento.

Entrevista com a Diretora da APAE santanense - Professora Liliane Severo



Função que exerce na APAE ? Quanto tempo? Diretora da Escola Especial Caio Cesar Beltrão Tettamanzy, HÁ 4 anos.
1-Quantos alunos tem a APAE Livramento? Na Instituição, atualmente atende-se 207 pessoas. Somente na Escola Especial estão matriculados 115 alunos.
2- Há lista de espera de vagas, ou seja, o número de vagas ofertadas é inferior à busca por novas vagas? Praticamente não existe lista de espera, pois a todo o momento que surgem vagas são chamados alunos novos.
3- Que tipo de trabalho (s) a instituição organiza com PNE? A Escola Especial é regulamentada com parecer de funcionamento e seguindo as mesmas regras das demais Escolas, ou seja, 200 dias letivos e 800 horas, mas busca um trabalho voltado para a eficiência de nossos alunos, por isso tenta diversificar ao máximo a aprendizagem utilizando-se muito de oficinas pedagógicas.
4- Que profissionais atuam na APAE? Professores, Fisioterapeutas, Psicóloga, Fonoaudióloga, Assistente Social, Médico, Psicopedagogas.
5- Quanto aos boatos de extinção das APAEs , há veracidade? Qual a sua opinião pessoal a respeito? Há na verdade uma grande movimentação a respeito da inclusão total, mas mesmo a inclusão acontecendo, tenho certeza que muitos casos a rede pública não terá condições de atender.
6- Como diretora da APAE e professora habilitada para trabalhar com PNE, qual a sua opinião sobre inclusão? As Escolas de Educação Especial são a favor da inclusão escolar com responsabilidade, isso não significa colocar todos os alunos na escola comum, fazendo assim uma inclusão física. A inclusão escolar significa garantir o acesso, a permanência e o sucesso escolar também dos alunos com deficiência. Para isso, a escola tem de oferecer os suportes que o aluno vai precisar para que ele possa, de fato, estar incluído.
7- Como a senhora vê o surgimento de cursos de habilitação em educação de PNE em nossa cidade? Como ficariam estes profissionais frente a possível extinção das CE? Alunos com necessidades educacionais especiais sempre existirão e muitos estão em salas regulares, se realmente a educação especial for extinta, o que não acredito que aconteça, a habilitação em Educação Especial contribuirá para que esses profissionais habilitados possam melhor atender seus alunos de sala de aula.
8- Com que recursos a APAE conta para custear suas despesas? Os recursos que as demais Escolas contam como Programas para alimentação, Projetos elaborados pela Instituição e colaboração da comunidade através do Telemarkting e da Nota Fiscal.
9- No momento a APAE Livramento está com os profissionais necessários para o atendimento ou há alguma carência? Se há, quais as causas? Estamos atendendo o número de alunos que a Instituição comporta.

sábado, 23 de maio de 2009

Violência e doença mental: fato ou ficção ?



*Wagner F. Gattaz
Em estudos histórico-antropológicos, J. Monahan (1992), Universidade da Virgínia, conclui que ‘a crença de que as doenças mentais estão associadas à violência é historicamente constante e culturalmente universal’. Esta percepção pública tem conseqüências na prática social (estigma) contra indivíduos portadores de doenças mentais. A estigmatização do doente mental é o maior obstáculo para sua reintegração social. Portanto, antes de aceitá-la devemos analisar criticamente, primeiro, se a associação existe de fato, e segundo, qual é a magnitude de seu efeito nos crimes de violência em geral.
Antes quero definir os termos. A expressão doença mental, como tem sido usada na mídia, inclui todo e qualquer desvio do comportamento, desde abuso de álcool e drogas até quadros psicóticos. Em senso estrito (e correto), devemos falar de doença mental quando nos referimos a quadros definidos de alterações psíquicas qualitativas, como por exemplo a esquizofrenia, as doenças afetivas (antes chamadas de psicose maníaco-depressiva) e outras psicoses. Por outro lado, existem alterações quantitativas, como a deficiência mental e os transtornos de personalidade, que representam ‘desvios extremos do modo como o indivíduo médio, em uma dada cultura, percebe, pensa, sente e, particularmente, se relaciona com os outros’. Portanto, não são doenças, mas extremos de um contínuo. Neste sentido usarei estes termos.
Em um estudo epidemiológico na Alemanha, H. Haefner e W. Boeker (1982) encontraram que não havia um excesso de doentes mentais dentre os criminosos violentos da década 1955-1964, quando comparados com a população geral. Encontraram também que a idade média do doente mental criminoso por ocasião do crime era 10 anos maior do que a do criminoso da população geral, sugerindo que a doença mental, ao contrário, retarda a expressão do ato de violência.
Seguiram-se inúmeros estudos sobre a associação doença mental-violência, incluindo a ampla investigação coordenada pelo ‘National Institute of Mental Health’ nos EUA (Epidemiological Catchment Area= ECA, Swanson et al. 1997). Estes estudos não encontraram uma associação, ou apenas uma associação discreta entre doença mental e o risco de cometer crimes de violência. Entretanto, todos eles apontam para dois outros fatores invariavelmente associados à violência: o abuso de substancias tóxicas (álcool e drogas), e a presença do transtorno de personalidade anti-social. Os efeitos de álcool e drogas não surpreendem, visto que ambos enfraquecem o auto-controle e liberam o ato de violência. As características do transtorno de personalidade anti-social já são, em si, predisponentes para atos contra a sociedade: indiferença pelos sentimentos alheios; desrespeito por normas sociais; incapacidade de manter relacionamentos embora não haja dificuldades em estabelecê-los; baixo limiar para descarga de agressão e violência; incapacidade de experimentar culpa e aprender com a experiência, particularmente punição; e propensão marcante para culpar os outros ou para oferecer racionalizações plausíveis para o comportamento que levou ao conflito com a sociedade (Classificação Internacional de Transtornos Mentais CID-10).
O grupo de pesquisa liderado por H. Steadman (1998), New York, não encontrou diferença na prevalência da violência em doentes mentais sem abuso de substâncias, comparados com a população geral. O risco de violência em indivíduos da população geral com abuso de álcool ou drogas foi duas vezes maior do que em pacientes esquizofrênicos sem abuso. Este risco é potencializado quando álcool ou drogas coexistem em indivíduo portador de transtorno mental, segundo J. W. Swanson e colaboradores (1997), coordenadores do ECA-Project. O maior risco para expressão de violência ocorre na combinação de abuso de álcool/drogas com transtorno de personalidade anti-social.
Estes achados sugerem que a doença mental em senso estrito contribui muito pouco para a ocorrência de crimes de violência. A magnitude desta contribuição pode ser avaliada pelo estudo de maior impacto sobre doença mental e crime, realizado na Dinamarca e publicado em 1996 por S. Hodgins e colaboradores (1996). Os autores identificaram todos os indivíduos nascidos entre 1944 e 1947 (360.000 indivíduos). Quando estes indivíduos tinham 43 anos de idade, identificou-se através dos registros centrais quais tinham um registro de internações em hospitais psiquiátricos, e quais tinham sido condenados por infrações do código penal. Comparou-se então a freqüência e o tipo de crimes cometidos entre os indivíduos com e sem internação psiquiátrica, assim como entre os diferentes diagnósticos psiquiátricos. Encontrou-se uma maior freqüência de crimes de violência em pacientes que haviam sido hospitalizados do que em indivíduos sem internações psiquiátricas. O resultado para homens, no período de 1978-1990, estão na tabela abaixo:
Diagnóstico
Crimes de Violência (%)
Sem internação psiquiátrica
1,5
Doença mental *
6,7
Retardo mental
11,4
Personalidade anti-social
10,8
Abuso de álcool
10,0
Abuso de drogas
13,0
* apenas os diagnósticos de esquizofrenia, psicose maníaco-depressiva, e outras psicoses Fonte: S. Hodgins e colaboradores, Archives of General Psychiatry 53, p. 494, 1996
Assim, na Dinamarca, indivíduos que foram internados em hospitais psiquiátricos por doença mental tem um risco 4,5 vezes maior de praticar um crime de violência que indivíduos sem internação. Os riscos para outros transtornos aumentam até 8,5 vezes em pessoas com abuso de drogas. Fica claro que álcool e drogas, também em nosso meio um problema de saúde pública, contribuem mais para a violência que as doenças mentais.
Entretanto, estes dados são superestimados: Na Dinamarca existe uma assistência psiquiátrica exemplar. Todo o cidadão tem acesso gratuito a medicamentos e a tratamento psiquiátrico em uma rede de serviços complementares abertos, como ambulatórios, centros de reabilitação, oficinas abrigadas e apartamentos comunitários. Isto possibilita que a maior parte dos pacientes passe a maior parte de suas vidas fora do hospital. A internação fica reservada apenas para os casos mais graves, difíceis de serem tratados nos serviços complementares. J. Monahan e H.J. Steadman (1983) mostraram que pacientes com um comportamento agressivo terão uma chance maior de serem hospitalizados do que pacientes não agressivos com sintomas semelhantes.
Portanto, o critério de seleção para o estudo na Dinamarca, baseado em registros de internação hospitalar, já selecionou, a priori, uma amostra de pacientes mais agressivos do que a média dos doentes mentais, resultando em uma estatística inflacionada do número de crimes de violência. Mesmo com estas reservas metodológicas, os resultados deste estudo falam contra o estereótipo existente, pois mostram que a grande maioria de doentes mentais na Dinamarca (no mínimo 93 porcento, seguramente mais) não é violenta.
Estes dados não podem ser imediatamente importados para o Brasil. É plausível supor que os índices de crimes de violência em cidades como São Paulo ou Rio de Janeiro são maiores que na Dinamarca. Como se trata aqui de criminalidade intencional, portanto consciente, é possível que ela esteja aumentada apenas na população sem doença mental, diminuindo portanto o excesso relativo em doentes. Mas isto é uma hipótese que necessita de verificação experimental.
O fato é que a associação entre doença mental e violência, ao menos na intensidade em que tem sido noticiada, não tem base real. O indivíduo psicótico pode se tornar agressivo se estiver alcoolizado. Aliás, o não-psicótico também.

A Esquizofrenia em Caminho das Índias


Felipe Epaminondas
Acho muito legal o trabalho que a novela Caminho das Índias têm feito na divulgação das doenças mentais. Querendo ou não, este é um meio de comunicação de enorme alcance e, de tanto comentarem, me rendi e também passei a assistir a novela. Achei tanto o psiquiatra (Stênio Garcia) quanto o Tarso (Bruno Gagliasso) personagens muito legais. Depois que eu tiver assistido mais cenas poderei comentar mais sobre eles, mas por enquanto já posso falar um pouco da esquizofrenia e do que eu tenho visto.
A esquizofrenia é um transtorno comportamental que envolve padrões de compotamento como delírios, aluncionações, isolamento social, entre outros. Já vi gente reclamar que a novela tem "simplificado demais" a esquizofrenia, que é muito mais do que o que está sendo mostrado, que é uma doença grave e que a novela não estaria a levando a sério. Pelo que percebi isto não é verdade, estas críticas podem estar ocorrendo pela ênfase que a novela está dando (corretamente) aos fatores sociais.
Acontece que, embora existam pesquisas sendo feitas e pistas sendo seguidas, até hoje ninguém sabe de onde vem a esquizofrenia, nem nunca foi encontrada nenhuma base genética ou alteração neuroquímica que cause esta condição com 100% de certeza. E mesmo que estes fatores influenciem, a pessoa nunca desenvolverá a esquizofrenia sem os fatores estressores. E estes fatores estão sempre no ambiente.
E quando eu digo ambiente me refiro ao físico, histórico e social. Alguns exemplos podem ser mudar de cidade, de escola, um trabalho novo, a morte de alguém próximo, o fim de um relacionamento, enfim, inúmeras situações podem ou não ser estressoras dependendo da pessoa e sua história de vida. Isso só é descoberto através de uma entrevista clínica.
E nem sempre esta é uma condição debilitante: é só assistir ao filme Uma Mente Brilhante, que mostra o famoso matemático John Nash que, mesmo sendo esquizofrênico, recebeu o prêmio Nobel.
Enquanto vou assistindo a novela, também acompanharei o blog do ator Bruno Gagliasso (http://gagliassoblog.com/), que têm focado este assunto.

Transtornos mentais: Desafiando os Preconceitos



Durante séculos as pessoas com sofrimento mental foram afastadas do resto da sociedade, algumas vezes encarcerados, em condições precárias, sem direito a se manifestar na condução de suas vidas. Hoje em dia, as atitudes negativas os afastam da sociedade de maneiras mais sutis, mas com a mesma efetividade.
Transtornos mentais afetam a todos
Você provavelmente conhece alguém que tem problemas mentais. Transtornos mentais como a ansiedade, depressão, distúrbios alimentares, mau uso de drogas e álcool, demência e esquizofrenia, pode afetar qualquer pessoa em qualquer época da sua vida. Na realidade, elas podem causar mais sofrimento e incapacidade que qualquer outro tipo de problema de saúde.
Apesar disso, pessoas com essas condições, muitas vezes atraem medo, hostilidade e desaprovação em vez de compaixão, apoio e compreensão. Tais reações não somente influem para que se sintam isolados e infelizes, como são impedimentos para que busquem ajuda efetiva e tratamento.
Neste e em outros textos, nós iremos destacar os efeitos danosos das atitudes negativas em relação aos transtornos mentais e forneceremos informações a respeito do que conhecemos a respeito delas. Esperamos colaborar para que venhas a pensar de forma diferente sobre os transtornos mentais, e a afastar alguns mitos e prejuízos que os cercam
A Associação Brasileira de Psiquiatria aproveita a experiência do “The Royal College of Psychiatrists’ da Inglaterra e do National Institute of Mental Health dos Estados Unidos da América para trazer ao conhecimento de todos interessados material informativo a respeito da Doença Mental ou Transtornos Mentais,
A Saúde mental é componente chave de uma vida saudável.

O que é “doença mental?”
O termo “doença mental” ou transtorno mental, engloba um amplo espectro de condições que afetam a mente. Doença mental provoca sintomas tais como, desconforto emocional, distúrbio de conduta e enfraquecimento da memória. Algumas vezes, doenças em outras partes do corpo afetam a mente; outras vezes, desconfortos, escondidos no fundo da mente pode desencadear outras doenças do corpo ou produzir sintomas somáticos.
O que causa a “doença mental?”
Um grande espectro de fatores – nosso mapa genético, química cerebral, aspectos do nosso estilo de vida. Acontecimentos que nos acometeram no passado e nossas relações com as outras pessoas – participam de alguma forma. Seja qual for a causa, a pessoa que desenvolve a “doença mental” ou o transtorno mental, muitas vezes se sente em sofrimento, desesperançada e incapaz de levar sua vida na sua plenitude.
Existe tratamento para a “doença mental?”
Uma notícia muito boa é que existem muitos tratamentos efetivos para a doença mental. Eles podem incluir medicamentos e outros tratamentos físicos, ou tratamentos pela fala (Psicoterapias) de várias espécies, aconselhamento e/ou apoio no dia a dia da vida em diferentes formas.
Diferentes profissionais, médicos e não médicos, podem estar envolvidos na assistência da pessoa que está mentalmente enferma: clínico geral, psiquiatras, psicoterapeutas, conselheiros, assistentes sociais e grupos de apoio voluntários
A Psiquiatria trabalha no diagnóstico e permite o conhecimento e previsão do curso natural da doença, e a escolha do tratamento mais adequado.
O que faz o psiquiatra?
Os psiquiatras são médicos que se especializam no diagnóstico e tratamento das doenças mentais ou transtornos mentais. O Psiquiatra examina os inúmeros fatores que podem ter contribuído para que alguém se torne mentalmente doente e trata de planejar o tratamento mais adequado para as necessidades individuais do/da paciente.
Os Psiquiatras estão qualificados para fornecer uma grande variedade de tratamentos, incluindo medicação com drogas e/ou diferentes tipos de psicoterapia, muitas vezes trabalha em parceria com outros profissionais da saúde. Os Psiquiatras também estão autorizados, pela lei, a recomendar internamento compulsório numa unidade psiquiátrica. Esse passo somente é dado no interesse da saúde de alguém ou para a proteção de terceiros, isso se sua condição for muito grave e a pessoa não aceitar conselho médico adequado. Esse tipo de medida necessária, e em casos isolados, criou para o psiquiatra o desconforto de ser visto como repressor, em vez de um médico interessado no bem estar do seu paciente, familiares e na sociedade.
Como a Psiquiatria ajuda?
As causas do sofrimento mental são complexas e os psiquiatras não tem todas as respostas. Como médicos, eles sabem que alguns aspectos da doença mental, tais como ansiedade, desespero e sentimentos suicidas, nem sempre são fáceis de serem eliminados. Nós vamos examinar algumas das limitações do nosso conhecimento e habilidade. Entretanto, nós acreditamos que, oferecendo uma abordagem sistemática e científica, a psiquiatria tem um importante papel a desempenhar, envolvendo tanto o tratamento físico como o psicológico para aliviar o sofrimentos das pessoas com doença mental.
O que é Estigma?
Na antiga Grécia, sinais corporais ou “stigmata” feitos por cortes ou queimaduras no corpo, marcavam as pessoas como diferentes. Pessoas com doença mental de há muito não são marcadas no corpo, mas atitudes críticas e prejudiciais podem ser tão danosas quanto as marcas corporais. Você apenas precisa abrir um jornal, ligar a TV ou ir ao cinema para perceber tais atitudes. Enquanto a mídia não aceitar essas queixa pelas percepções negativas, toda vez que um programa, artigo ou filme retrata um estereótipo ou falha em esclarecer um mal entendido sobre doença mental, ela auxilia na manutenção de mitos.
Como surgem os Estigmas?
Os Estigmas podem surgir por diferentes caminhos. As pessoas com sofrimento mental podem agir diferentemente: uma pessoa deprimida pode se apresentar triste ou apática; alguém na fase maníaca da doença bipolar pode parecer exageradamente feliz ou irritável. Outros fatores como, ser visto visitando um psiquiatra ou um hospital ou clínica pode marcar alguém como “mental” ou psiquiátrico.
Por que isso é importante?
O problema é que quando alguém é marcado como diferente, é difícil para ele ser aceito, não importa o quanto ele tente, Eles não conseguem afastar o estigma e o resultado disso é que perdem a confiança em si mesmos. Com o tempo, começam a se sentir como estranhos e que não se enquadram na vida.
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É chegado o tempo de mudar a mente.
Pessoas com transtornos mentais ou doença mental continuam a serem prejudicados e discriminados em todas as áreas de suas vidas, desde onde encontrar um lugar para viver, encontrar um trabalho. Não é surpreendente que muitas pessoas com doença mental grave termine pobre ou sem teto. Cabe a todos nós tomarmos conhecimento do dano que provocamos com nossas atitudes negativas e nossa colaboração para isolá-los. Seja quem formos e seja o que fazemos, nós podemos combater os efeitos danosos do estigma estendendo nossa amizade, apoio e compreensão em vez do nosso julgamento e discriminação, para as pessoas que estão mentalmente doentes.
1. Fato ou Ficção?
Ficção: Descrever pessoa com doença mental como “louco”, “esquisito”, “Pinel” “lunático”, o diminui como pessoa a não ser levada seriamente ou com a percepção que ele é perigoso pode excluí-lo das atividades do dia a dia.
Fato: Pessoas com doença mental necessitam nossa compaixão. Rótulos como esses impedem a verdadeira compreensão
2.
Ficção. Muitas pessoas acreditam que doença mental é incurável. Eles podem até ver certos tratamentos, como com antidepressivos ou psicoterapias, como sem valor ou mesmo danosos, mesmo que em muitos casos tenham se mostrado efetivos.
Fato: A doença mental é tratável e respondem favoravelmente ao tratamento médico ou outros tratamentos como tantas outras doenças somáticas. O problema do estigma da doença mental pode dificultar a pessoa que sofre, buscar ajuda e isso atrapalhar para que outros a auxiliem.
3. Ficção: Pessoas com doença mental são vistas, muitas vezes, como fracas, auto-indulgentes ou que guardam seus problemas para si mesmos. Mesmo as pessoas que sofrem de doença mental acreditam que eles são os culpados.
Fato: Pessoas com doença mental necessitam que você reconheça,que, eles são doentes da mesma maneira que o são pessoas com doenças físicas.
4. Ficção: Pessoas com doença mental muitas vezes se sentem isoladas e deixadas de lado porque outras pessoas as acham difíceis de lidar ou de estar com eles
Fato; A pessoa com doença mental necessita amizade e compreensão como qualquer outra pessoa.
5. O futuro.
Cientistas estão fazendo progressos no desvendamento da estrutura e química do cérebro. Como conseqüência nós temos melhor compreensão da mente e com ela funciona. Entretanto, a doença mental tem muitas causas. Ela não é apenas uma questão de química alterada.

sábado, 25 de abril de 2009

Os Caminhos da Inclusão no Brasil


Aspectos Legais:

Não se pode falar em inclusão, sem lembrar ao menos um pouco, da parte legal que a envolve. Precisamos voltar à época do Brasil – Império, onde na Constituição de 1824, foi consagrado o direito à educação para todos os Brasileiros. Tendo esse direito se mantido nas Constituições de 1934, 1937 e 1946. Tendo ainda em 1948, a Declaração Universal dos Direitos do Homem, aprovada pela Assembléia Geral das Nações Unidas, onde se afirma o princípio da não discriminação e proclama o direito de toda pessoa à educação.Entre as décadas de 50 e 60, surge a discussão sobre o conceito de Normalização, que tem como princípio, fazer com que a pessoa retardada (como se referia ao de déficit intelectivo), se assemelhe às condições normais de sociedade, questionando assim, as tendências segregativas e centralizadora com que eram atendidas. A educação especial no Brasil começa a ter um cunho educacional, apesar de ainda manter características assistencialistas.A partir dos princípios de normalização, a Educação Especial passou por importantes mudanças. No ano de 1959 com a aprovação da Declaração dos Direitos da Criança, tem assegurado no seu capítulo 7º. , o direito à educação gratuita e obrigatória, ao menos em nível menos elementar. Esses direitos foram mantidos nas Constituições Brasileiras de 1976 e 1969 respectivamente.Em nossa atual Constituição (1988), esses direitos não só foram mantidos, como entendidos como sendo dever do Estado e da família, no seu art. 205. Temos ainda no Estatuto da Criança e do Adolescente, no seu art. 54 e 66, de forma mais específica assegurado o direito à educação, onde se faz referência aos Portadores de Necessidade Educacionais Especiais e seus direitos, não só a educação, como também ao trabalho.No ano de 1990, aconteceu a Conferência Mundial Sobre Educação Para Todos. Felizmente a educação aparece como preocupação mundial. O tema foi motivo de vários estudos e encontros. Na Espanha, durante a Conferência Mundial de Necessidades Educacionais Especiais, foi aprovada a Declaração de Salamanca no ano de 1994, cujos princípios norteadores são:- O reconhecimento das diferenças;- O atendimento às necessidades de cada um;- A promoção de aprendizagem;- O reconhecimento da importância da "escola para todos";- A formação de professores.Os aspectos políticos – ideológicos que estão embutidos nos princípios desta Declaração, nos leva a pensar num mundo inclusivo, onde todos têm direito à participação na sociedade, fazendo valer a democracia de forma cada vez mais ampla.Não se pode deixar de mencionar que as grandes linhas estabelecidas pela Constituição, foram regulamentadas em seus mínimos detalhes pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação, Lei no. 9.394/96. Onde pela primeira vez temos um capítulo (capítulo V) destinado à Educação Especial, cujos detalhamentos são fundamentais:- Garantia de matrícula para os Portadores de Necessidades Educacionais Especiais, preferencialmente na rede regular de ensino;- Criação de apoio especializado, para atender às peculiaridades dos alunos especiais;- Oferta de educação especial durante a educação infantil;- Especialização de professores.Alguns autores destacam a importância da Lei no. 9.394/96 ter um capítulo destinado a esta modalidade. No entanto, como coloca Rosita Edler (1998), esta não amplia a discussão sobre inclusão, uma vez que seria necessário que esta estivesse presente em todas as modalidades de educação.Podemos observar a importância e urgência em aplicar esses textos legais, se levarmos em conta, que no Brasil apenas 3% dos P.N.E.E, têm acesso e permanência na escola, necessitando muitas vezes, recorrer aos Conselhos Tutelares, para fazer valer esse direito inquestionável.Com a elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais em 1997, onde se aborda a diversidade, temos no tocante à Adaptação Curricular a clara necessidade de adequar objetivos, conteúdos e critérios de avaliação, de forma a atender as peculiaridades dos alunos. Temos numa abordagem geral, o tema Interação e Cooperação, onde um dos objetivos da educação escolar é que os alunos, aprendam a conviver em grupos, valorizando sua contribuição, respeitando suas características e limitações, e de forma mais específica, as Adaptações Curriculares Estratégias para Educação de Alunos com Necessidades Educacionais Especiais.Porém com todas essas leis, adaptações, estabelecimento de parâmetros e tantas outras ações pensadas e elaboradas, é ainda muito pouco ainda se oferece, na prática nos deparamos com obstáculos de toda ordem, principalmente quando pensamos nessas questões em relação ao aluno portador de autismo e outros transtornos invasivos do desenvolvimento. Quem está preparado para receber nossas crianças autistas? Quem conhece, ao menos um pouco, do que é ser autista? Ou ainda, quem conhece o autismo? Que criança poderá ser incluída e o que será oferecido às que não puderem ser?São tantas as perguntas, que daria para escrever um livro, mas não é esse o objetivo, e sim mais uma vez lembrar que cabe aos que conhecem (ao menos um pouco) sobre o autismo, divulgar, esclarecer, enfim, informar!Vania Viana – Professora de Educação Especial

Educação especial


Cibele Gandolpho

Mais do que realização profissional, muitos professores do ensino convencional estão partindo para outra área, a do ensino especial, que atende alunos com deficiência mental, superdotados, surdos, cegos ou com algum tipo de problema físico. O mercado está em ascensão. Hoje, existem cerca de 37 mil escolas que atendem a estudantes com necessidades educacionais especiais, sendo que 32,9 mil são públicas.Segundo o mais recente Censo Escolar, realizado em 2006 pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), 266.464 estudantes portadores de necessidades educacionais especiais se matricularam em escolas, sendo 164.690 em instituições municipais, 92.305 em estaduais, 9.336 em privadas e outros 133 em federais. A elevada taxa de inclusão de estudantes com necessidades educacionais especiais em classes comuns e a redução no ritmo de crescimento das matrículas em escolas exclusivamente especializadas, consolida a tendência dos últimos anos de integrar os alunos. FormaçãoPara trabalhar em uma escola especial, o educador precisa ter um curso de especialização e não somente a formação em Pedagogia ou Letras. "Esses professores têm experiência por reunir condições apropriadas ao atendimento desse aluno, como conhecimentos de deficiências e síndromes, formas de lidar com cegos, surdos e deficientes mentais, habilidades com trabalhos manuais, entre outras funções", explica Yara Sayão, psicóloga do Serviço de Psicologia Escolar da Universidade de São Paulo. Segundo ela, é fundamental que o professor tenha a especialização. Só ele vai saber lidar com as limitações de cada aluno, identificar se o estudante precisa de atendimento médico, no caso de convulsões, e o que cada um necessita, entre outros pontos. Nas aulas, os professores têm noções até de fisioterapia, fonoaudiologia e religião. "Há muito tempo discute-se a inclusão de alunos especiais em instituições convencionais. O problema é que essas crianças precisam de um atendimento extra. Em uma classe grande, isso somente é possível com duas professoras, uma com especialização e outra sem. Mas os Estados não têm condições de bancar dois educadores por sala. É por isso que a inclusão ainda está parada. Eu acho que deveria haver a inclusão porque, depois de adulto, o aluno vai precisar conviver com pessoas normais. Não há motivos para isolá-los na infância e na adolescência apenas", diz Yara. Na educação especial, os métodos de ensino, o processo de aprendizagem e os objetivos são diferentes. De acordo com a psicóloga, o aluno com necessidade especial está sempre adquirindo conhecimento, mesmo que não seja o formal. "É uma área que, ao mesmo tempo em que é desgastante, é muito gratificante", acredita a professora Regina Júlia Pereira dos Santos, de 43 anos, que trabalha como professora auxiliar na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae). Depois de fazer um curso especializado de 180 horas durante três meses em 2004, na própria Apae, ela começou a trabalhar como voluntária na associação. Prestou vestibular e hoje está no último ano de Pedagogia e pretende continuar na Apae como funcionária. Durante 20 anos, Regina foi bancária e sempre sonhou em trabalhar com crianças excepcionais. "Quando fui demitida, vi que era hora de ir atrás do meu sonho, fazendo o curso e me prontificando a trabalhar sem ganhar nada no início. Só depois de um ano é que fui fazer faculdade de Pedagogia e passei a receber como professora na Apae", diz. Hoje, quase três anos depois, a docente atua em uma sala de aula com outra educadora atendendo a alunos de 13 a 24 anos. "Cada aluno é muito diferente do outro. Há aqueles que precisam aprender a ler, outros que têm deficiências mentais e não conseguem se mexer. Nestes casos, aprendemos no curso a fazer atividades que os estimulem, como pegar objetos. Aos menos debilitados, posso aplicar atividades artísticas, como colagens, recortes, ensino de algum prato culinário, entre outras coisas." A educadora diz que, quando o professor facilita o bem-estar do deficiente, ele o ajuda em sua recuperação de um modo geral e na sua inclusão social. A socialização que ele aprende na escola lhe traz algo essencial, que é a autonomia. Se o professor percebe que o seu verdadeiro papel é o de despertar diversos conhecimentos, a ansiedade do aluno especial diminui em muitos casos. Quando se formar, Regina pretende continuar ensinando alunos excepcionais em um período do dia e dar aulas regulares em outro período em alguma escola convencional. EspecificidadesOs professores que estão em busca de trabalho na área especial precisam estar cientes de que existem escolas específicas para cada problema. "Uma criança cega precisa do braile para aprender a ler e existem cursos para os professores, assim como para surdos, deficientes mentais, etc.", diz Regina. Uma pesquisa da Secretaria de Educação Especial (Seesp), do MEC, mostra que em 2005 o maior número de alunos matriculados na educação especial sofria de deficiência mental (43,4%), representando um total de 278.167 pessoas. Estudantes com deficiências múltiplas representavam 10,5% das matrículas, 8,5% tinham baixa visão, 1,3% eram cegos, 7,2% eram surdos, 5,4% tinham Síndrome de Down e apenas 0,3% eram superdotados. Na opinião da professora Márcia Rodrigues, que atua com crianças com Síndrome de Down em uma escola particular convencional de São Paulo, a figura do professor de recurso é muito importante. Ele chega com o conhecimento sobre a deficiência e orienta o professor regular. "Ambos podem criar práticas pedagógicas baseadas no potencial do aluno que visam desafios e avanços no conhecimento e na autonomia. Ele é o facilitador da inclusão, ajuda o aluno a interagir com o meio, com o professor regular e vice-versa", explica. Márcia é professora há 10 anos e, há dois, resolveu se especializar e atuar na área de ensino a crianças especiais. Em relação a salários, a média recebida pelos educadores é semelhante ao ensino convencional, cerca de R$ 600 no setor público e R$ 1.000 nas escolas privadas. Apesar de ainda não receber como professora formada em Pedagogia, Regina tem um salário mínimo como auxiliar por causa de sua especialização em ensino excepcional e afirma que na escola onde trabalha as professoras recebem cerca de R$ 600 por mês. "Até que não é ruim por ser uma instituição que depende de doações, como é a Apae."

sábado, 14 de março de 2009

Deficiência Mental



A deficiência mental é definida como um problema estrutural no cérebro que altera o rendimento intelectual de um indivíduo, ou seja, o seu nível de conhecimento é prejudicado já que seu QI (quociente de inteligência) está abaixo do valor considerado padrão pelos testes psicométricos e por dosagens cognitivas. Tal problema é divido por níveis que caracterizam o indivíduo de acordo com suas dificuldades: Bordeline: Pessoas que se enquadram nesse nível do distúrbio possuem QI variando entre 68 e 85. Apresentam dificuldades em aprender e a lidar com outras pessoas. Ligeiro: Pessoas que se enquadram nesse nível possuem QI variando entre 52 e 67. Apresentam dificuldades culturais, familiares e ambientais. Moderado: Pessoas que se enquadram nesse nível possuem QI variando entre 36 e 51. Apresentam dificuldades em falar e a se adaptar a padrões impostos pela sociedade. Severo: Pessoas que se enquadram nesse nível possuem QI variando entre 20 e 35. Apresentam problemas psicomotores e dificuldades em se expressar utilizando a fala. Profundo: Pessoas que se enquadram nesse nível possuem QI menor que 20. Apresentam problemas sociomotores, de comunicação, dificuldade em realizar atividades e de receber estímulos. A partir da classificação do problema é necessário aplicar métodos de auxílio às áreas em que o indivíduo apresenta dificuldade. Normalmente esses são atendidos por equipes médicas compostas por fisioterapeutas, psicólogos, médicos e fonoaudiólogos. Apesar de muito confundida com doença mental, a deficiência mental se difere grandemente desse outro problema, pois não afeta as demais funções do organismo e nem sua percepção de mundo e de si mesmo.
Por Gabriela CabralEquipe Brasil Escola

O que é deficiência mental






A deficiência intelectual ou mental é conhecida por problemas com origem no cérebro e que causam baixa produção de conhecimento, dificuldade de aprendizagem e um baixo nível intelectual. Entre as causas mais comuns deste transtorno estão os fatores de ordem genética, as complicações ocorridas ao longo da gestação ou durante o parto e as pós-natais. O grande enigma que se coloca diante dos pesquisadores é como detectar ainda na vida dentro do útero estas características.
Embora seja possível identificar a maior parte dos casos de deficiência mental na infância, infelizmente este distúrbio só é percebido em muitas crianças quando elas começam a freqüentar a escola. Isso acontece porque esta patologia é encontrada em vários graus, desde os mais leves, passando pelos moderados, até os mais graves. Nos casos mais sutis, os testes de inteligência direcionados para os pequenos não são nada confiáveis, torna-se então difícil detectar esse problema. Nos centros educacionais as exigências intelectuais aumentam e aí a deficiência mental torna-se mais explícita.
Um mito em torno da Deficiência Mental, e isso influi no diagnóstico, é acreditar que a criança com este problema tem a aparência física diferente das outras. Como foi dito acima, as de grau mais leve não aparentam ser deficientes, assim não se deve esperar encontrar este sinal clínico para caracterizar a pessoa com necessidades especiais. Pode-se encontrar uma exceção nos que acusam um distúrbio mais grave e severo, assim como na Síndrome de Down, que apresentam em comum fisionomias semelhantes.
Como a deficiência mental está entre as síndromes consideradas anormais, é importante definir o que é normal para os especialistas, quais referências eles adotam para estabelecer se uma criança possuiu alguma deficiência. O fator mais associado à idéia de normalidade é a capacidade da criança de se adequar ao objeto ou ao seu universo. Mas geralmente este distúrbio psíquico é considerado como uma condição relativa da mente, comparada com as outras pessoas de uma mesma sociedade.
O tratamento deve incluir o acompanhamento simultâneo do médico, do fisioterapeuta, da terapia ocupacional, do fonoaudiólogo, do psicólogo, do pedagogo, entre outros. Assim, é possível amenizar as conseqüências deste problema. O diagnóstico precoce também é fundamental para oferecer à criança uma melhor qualidade de vida e resultados mais eficientes – estas técnicas de detecção prematura, realizadas por vários profissionais ligados aos campos da reabilitação e da puericultura, ramo da medicina que ensina a criar e a desenvolver moral e fisicamente as crianças, são conhecidas como Avaliação do Desenvolvimento e Estimulação Precoce.
Como a criança tem suas funções intelectuais comprometidas, ela pode também ter dificuldades em seu desenvolvimento e no seu comportamento, principalmente no aspecto da adequação ao contexto a que pertence, mas igualmente nas esferas da comunicação, do cuidado consigo mesma, dos talentos sociais, da interação familiar, da saúde, na segurança, no desempenho acadêmico, no lazer e no campo profissional. A deficiência intelectual manifesta-se no paciente sempre no estágio anterior aos dezoito anos de idade. Assim fica claro que, ao contrário da Demência, a Deficiência Mental se caracteriza pelos transtornos no desenvolvimento, não por degenerações cognitivas.É importante não confundir Deficiência Mental ou Intelectual com Doença Mental. A pessoa com necessidades especiais mantém a percepção de si mesmo e da realidade que a cerca, sendo capaz de tomar decisões importantes sobre sua vida. Já o doente mental tem seu discernimento comprometido, caracterizando um estado da mente completamente diferente da deficiência mental, embora 20 a 30% dos deficientes manifestem algum tipo de ligação com qualquer espécie de doença mental, tais como a síndrome do pânico, depressão, esquizofrenia, entre outras. As doenças mentais atingem o comportamento das pessoas, pois lesam outras áreas cerebrais, não a inteligência, mas o poder de concentração e o humor.

Texto de Ana Lucia Santana, adaptado para divulgação no site do Instituto Indianópolis.

domingo, 1 de março de 2009

Fonoaudiologia(Fúlvia Binda - fonoaudióloga)


AS PERTURBAÇÕES DA LINGUAGEM NA CRIANÇA

Atraso de Desenvolvimento da Linguagem (ADL): Uma criança portadora de um ADL evolui em todos os estádios fundamentais do desenvolvimento lingüístico, tanto no uso como na compreensão da linguagem, mas com algum atraso comparativamente às outras crianças com a mesma idade. Disfasia / Afasia de Desenvolvimento / Perturbação Específica da Linguagem (PEL): Uma criança portadora de uma PEL não evolui em todos os estádios fundamentais do desenvolvimento lingüístico, geralmente tanto no uso como na compreensão da linguagem. Pelo contrário, a criança utiliza as suas próprias regras e consequentemente, deixa de ser compreendida pelos que a rodeiam. Dificuldades de Aprendizagem:Constituem dificuldades que se observam nas crianças em idade escolar que se encontram num processo de aprendizagem. Estas podem traduzir-se em dificuldades de leitura e escrita (respectivamente dislexia e disgrafia), etc..

PERTURBAÇÕES DA LINGUAGEM NO ADULTO

Afasia:Caracteriza-se pela perda (total ou parcial) ou pela desorganização lingüísticas, como conseqüência de um acidente vascular ou de uma lesão. As dificuldades manifestam-se na expressão e/ou na compreensão da linguagem oral (por exemplo anomia, etc.) ou escrita (por exemplo, dis/alexia, dis/agrafia, etc.). As Perturbações Cognitivo-Linguísticas: São observáveis em indivíduos que tenham sofrido um traumatismo craniano ou qualquer outro choque cerebral. As dificuldades mais freqüentes incidem na memória, na atenção, no léxico, na orientação, na adaptação ao meio e no tratamento assim como na análise de informações orais e/ou escritas.
PERTURBAÇÕES DA FALA

Perturbações Articulatórias: Estas perturbações consistem numa desorganização da fala resultante de um uso sistemático incorreto dos órgãos envolvidos na produção dos fonemas (lábios, língua, véu palatino, etc.). Estas alterações manifestam-se em substituições, omissões e deformações de fonemas, bem como em simplificações de grupos consonânticos. Disartria:A disartria é uma perturbação da fala caracterizada por uma descoordenação entre a respiração, a articulação, o vozeamento, a ressonância e a entoação e que surge como conseqüência de um déficit neuro-muscular. Apraxia:A apraxia manifesta-se pela dificuldade em executar os movimentos necessários para a produção intencional da fala ou pela dificuldade em executar ordens. Gagueira:A gagueira consiste numa perturbação da fala que afeta o ritmo, a velocidade e a prosódia (a melodia) da fala. Manifesta-se pela dificuldade em iniciar a fonação (bloqueio), pela repetição de um som, de sílabas ou de palavras, pelo prolongamento de sons ou ainda através de elisões.Disfonia (Perturbação Vocal):A disfonia é uma perturbação relacionada com a altura, a intensidade e/ou a qualidade da voz. Em função da causa (por exemplo, nódulo, pólipo, etc. ), a disfonia no adulto e na criança pode levar à ausência total de voz (afonia), à rouquidão, a uma altura tonal demasiado grave ou aguda, com desvozeamentos, etc.. Principais causas das perturbações da linguagem e da fala:- perturbações auditivas;- paralisias centrais;- perturbações centrais;- perturbações neurológicas;- lesões cerebrais (TCE, etc.);- acidentes vasculares cerebrais;- perturbações amnésicas (da memória);- perturbações da atenção;- malformações dos órgãos da fala;- mau uso e abuso vocal;- perturbações emocionais;- fatores do meio ambiente.
O QUE É UM TERAPEUTA DA FALA?

(Departamento de Recursos Humanos, Ministério da Saúde/89): Avalia, diagnostica e trata alterações da comunicação humana (problemas de voz, de articulação, de fluência e de linguagem) de etiologia variada, em crianças e adultos, competindo-lhe, igualmente, atuar a nível da prevenção dessas alterações.

O QUE É UM LINGÜISTA? É o profissional que se dedica ao estudo dos fatos da linguagem (origem, evolução e estrutura), bem como ao estudo histórico e comparativo das línguas.

O QUE É UM FONOAUDIÓLOGO?FONOAUDIÓLOGO é o profissional com graduação plena em FONOAUDIOLOGIA, que atua em pesquisa, prevenção, avaliação e terapia fonoaudiológicas na área de Comunicação Oral e Escrita, Voz, e Audição, bem como em aperfeiçoamento dos padrões de Fala e da Voz.(Lei 6965/81).

AREAS DE ATUAÇÃO DO FONOAUDIÓLOGOAudiologia: realiza exames audiológicos para verificar a audição dos pacientes; selecionar e adaptar aparelhos de surdez e habilitar ou reabilitar deficientes auditivos. Uma pessoa pode desconfiar de alguma doença auditiva ao avaliar a capacidade de audição. Baixa audição é sinal de que algo está errado e deve ser verificado junto a um especialista que pode ser o fonoaudiólogo. E a avaliação deve ser feita ainda no bebê. Desde o quinto mês de gestação, os bebês já são capazes de reconhecer a voz da mãe.Linguagem: reconhece problemas relacionados ao aprendizado da língua, habilita crianças com atraso ou deficiência de linguagem ou pacientes que adquiriram a linguagem mas a perderam por algum motivo, como derrame cerebral, por exemplo. Os problemas de linguagem podem se manifestar de forma variada como retardo na emissão das primeiras palavras, deficiência na formação de frases; omissões e acréscimos de sons na fala; troca de fonemas; gagueira, entre outros. Após reconhecer o problema, o fonoaudiólogo deve corrigir as disfunções, através de estimulação de acordo com o caso.Motricidade oral: é a área que se concentra na musculatura da face, boca e língua. O fonoaudiólogo soluciona problemas relacionados à sucção, mastigação, deglutição, respiração e fala. Pode auxiliar quem posiciona a língua de modo errado ou engole alimentos de forma incorreta, de modo a contribuir para o mau alinhamento dentário. Também pode facilitar a respiração nasal de quem respira pela boca.Voz: o fonoaudiólogo que atua nessa área pode não só prevenir os distúrbios da voz como aperfeiçoá-la. A voz é produzida nas pregas ou cordas vocais, passando pelas cavidades oral e nasal e faringe, que funcionam como amplificadores naturais. Quando se torna áspera, muito rouca ou de difícil emissão, é sinal de que pode estar sendo afetada por algum problema que deve ser diagnosticado. O fonoaudiólogo também pode trabalhar com idosos, ensinando exercícios para estimular e tonificar a musculatura facial, as qualidades da voz e o uso adequado da respiração. Além de fornecer técnicas que proporcionam o uso correto da postura, respiração e impostação vocal a quem trabalha na área de telemarketing e em meios de comunicação oral.

O QUE É DISFAGIA?Alteração do processo da deglutição que envolve a participação de diferentes nervos, músculos e estruturas, comandados pelo sistema nervoso. Deglutir é o ato de introduzir o alimento na boca e leva-lo até o estômago . os sinais e sintomas mais comuns são: engasgos, tosse, aspiração, dispnéia, perda de peso, refluxo gastroesofágico, entre outros.

O QUE É ASPIRAÇÃO?É quando o alimento que foi introduzido na boca, em vez de seguir seu caminho correto, entra na via aeria ( via respiratória), traquéia e até pulmão.

QUAIS AS CAUSAS MAIS COMUNIS DA DISFAGIA?Câncer localizado na região da cabeça e do pescoço, AVC (derrame), traumatismos cranio encefálicos, e outras doenças neurológicas da infância e do adulto, doenças gástricas do recém nascido, criança ou adulto. Com o avanço da idade também põem ser observadas dificuldades no processo da deglutição. Alguns medicamentos por seus efeitos na salivação, na motilidade dos músculos podem dificultar a deglutição.

PROBLEMAS NA DEGLUTIÇÃO PODE OCASIONAR PNEUMONIA?Sim. A chamada pneumonia aspirativa é quando o material que permanece no pulmão leva ao aparecimento de infecções. As pneumonias aspirativas devem ser tratadas pelo médico e, muitas vezes, neste momento , deve ser suspensa a alimentação via oral ( pela boca), causadora da pneumonia.

COMO É TRATADA A DISFAGIA?O tratamento depende do grau de comprometimento e do tipo de disfagia ( existem vários: disfagia preparatória oral, disfagia oral, disfagia faríngea e disfagia esofágica). Vários profissionais estão envolvidos neste tratamento: fonoaudiólogos, neurologistas, pediatras, otorrinolaringologistas, gastroenterologistas, pneumologistas, cirurgiões de cabeça e pescoço, oncologistas, radioterapeutas, dentistas, fisioterapeutas, nutricionistas, enfermeiros, psicólogos,e terapeutas ocupacionais.

COMO A FONOAUDIOLOGIA TRATA A DISFAGIA?Primeiro, o fonoaudiólogo deve realizar uma avalliação detalhada da deglutição, solicitando quando necessário, a realização de exames complementares ( videofluoroscopia e nasofibroscopia da deglutição). Após a avaliaçao clinica e complementar é possível planejar o tratamento fonoaudiológico, o chamado gerenciamento dos distúrbios da deglutição e da alimentação via oral, que pode ser feito pela orientação de exercícios, manobras facilitadoras e de proteção das vias respiratórias.

História do movimento da escola inclusiva - De onde veio a proposta da escola inclusiva?


ADAPTAÇAO do texto da Profa. Dra Leny Magalhães MrechFaculdade de Educação da Universidade de São PauloMatéria enviada por Marina S. Rodrigues AlmeidaPsicóloga e PsicopedagogaOs quatro eixos básicos que constituíram o Paradigma da Inclusão partiram do entroncamento de quatro fontes básicas: a emergência da Psicanálise ; a luta pelos Direitos Humanos, a Pedagogia Institucional e o movimento de Desinstitucionalização Manicomial ou Antipsiquiatria.Foram estes desencadeadores que delinearam um problema social, um problema público - a questão da inclusão social - que vem tomando forma e exigindo novas práticas educacionais e sociais.As contribuições de Sigmund Freud e Jacques Lacan , trouxeram uma nova forma de se conceber os seres humanos: a importância da linguagem, do inconsciente e da sexualidade nos processos de constituição dos sujeitos.Através dos ensinamentos de Freud e Lacan foi possível identificar que havia em relação à sociedade e aos sujeitos uma leitura ingênua do mundo. Uma crença na intencionalidade direta e linear das ações dos sujeitos e da sociedade.Freud revelou que o sujeito e a sociedade podem ir contra si mesmo. Os sujeitos não criam apenas através das suas ações, o que chamou de pulsão de vida. Eles podem também se destruir ou destruir ao outro, um processo bastante sofisticado que Freud denominou de pulsão de morte.Com isto foi tornando-se cada vez mais evidente que a sexualidade, a inteligência e a afetividade dos seres humanos não eram apenas produtos já dados, mas construções sociais e individuais. Para Freud e Lacan a ênfase estava nas relações e não em processos biológicos previamente concebidos e estruturados. Um exemplo é a questão atualíssima da violência nas escolas, vem revelando que não basta lidar apenas com o cognitivo, nós precisamos também trabalhar com a afetividade dos alunos, existe um desamparo familiar, social, político, ético, moral etc... encobrindo essa violência manifesta.Mais tarde, a luta pelos Direitos Humanos veio ampliar ainda mais esta proposta. Ela delineou uma outra passagem que é a luta pelos direitos políticos. De 1964 a 1968, no meio universitário e fora dele, emergiu, no mundo todo, a defesa pelos Direitos Humanos aplicados a todos os sujeitos. Independente do fato de se pertencer a uma dada raça, cor, religião, situação financeira, etc. O objetivo é que todos os sujeitos tivessem acesso e direito garantido aos mesmos parâmetros de ingresso nos processos sociais e educativos.A luta pela Declaração Universal de Direitos Humanos de 1948, veio revelar o papel estratégico que a Educação vem ocupando na manutenção, ao longo de décadas, de processos estigmatizadores.Em decorrência, não foi ao acaso que emergiu, na França, na década de 60, a Pedagogia Institucional ou Pedagogia revolucionária, aquela cujas raízes se encontram no movimento frenetiano e no grupo dos Situacionistas Internacionais que, desencadearam no mundo todo, uma nova forma de ver a cultura e a Educação. Esse conceito situacionista, revela a importância de não mais focalizarmos o sujeito isoladamente. É preciso que se identifique também o contexto social - a situação ou ambiência - onde sujeito se encontra colocado.O movimento mais transformador da cultura na década de 60 e 70, foi o Movimento de Desinstitucionalização Manicomial, ou seja, da quebra das cadeias manicomiais, como lugares de atendimento e tratamento excludentes dos doentes mentais.Os movimentos de Desintitucionalização e Antipsiquiatria propiciaram novas luzes aos processos de atendimento e tratamento dos doentes mentais. Eles revelaram a importância de situações saudáveis para o bom andamento dos sujeitos. Situações onde os doentes mentais não ficassem excluídos dos ambientes comuns, mas fosse dado o direito de participar de uma forma mais ampla e digna dos contextos sociais comuns.Acreditamos que os conteúdos que atualmente surgiram em Educação Inclusiva não sejam referidos apenas ao momento presente. Revelam a existência de um problema social maior, um problema público, em relação à maneira como os deficientes têm sido tratados ao longo da história da nossa civilização.

A Escolha da Escola





A procura por uma escola adequada deve levar em conta uma série de fatores; primeiramente de acordo com o quadro da criança, você deve ver se é melhor para ela uma escola normal (a chamada educação inclusiva) ou uma escola especial adequada a síndrome da criança. Para esta decisão é preciso examinar com calma se a escola normal têm as condições para atender bem seu filho(a), se os educadores da escola estão concientes e preparados (não basta aceitar a criança, não se trata disto, é preciso que possam ajudá-lo a desenvolver-se). As outras crianças costumam lidar melhor com este assunto que os adultos, elas auxiliam em muito o desenvolvimento do amiguinho e geralmente o recebem de coração. Naturalmente se adaptam sem problemas. São os adultos que costumam complicar, criam métodos isto, métodos aquilo, mas as crianças de um modo geral levam mais progresso ao amigo especial que todos estes métodos juntos. Se você já procurou por educação inclusiva, deve ter levado muitos sustos e choques também. Teoricamente toda a escola deveria "aceitar" a criança, sem discriminá-la, é lei, mas não é isto que acontece. Na prática por mais bem arrumado e bonito que seu filho esteja muitas vão discriminá-lo.Prepare-se.A mediocridade é tanta que chegarão a lhe dizer frases do tipo: "Eu gostaria muito mas não estamos preparados para esta criança; Como vou misturá-los aos outros? Por mim eu matricularia, mas os outros pais não irão concordar!" e por aí a fora. Não se incomode, estas pessoas estão educadoras mas não são educadoras. Realmente elas não servem para nossos filhos (creio que para ninguém). Se por fim, você conseguir uma escola normal que vai trabalhar bem com seu filho, parabéns (merecerá o Nobel de pesquisa!).

Escola Especial

Em se tratando de escola especial é bom lembrar que as turmas são pequenas (geralmente 5 ou 6 alunos) e as aulas são dadas por professoras especializadas. O atendimento é individual e a criança é trabalhada de forma a superar suas dificuldades. A experiência da equipe em lidar com os problemas comuns aos especiais ajudam muito a criança e a família. Quando ler as placas ou folhetos da escola e ver: psicomotricidade, fisioterapia, musicoterapia, fonoaudiologia etc, não se iluda! Apesar do alto valor das mensalidades, nada, mas nada disto, está incluso, estes trabalhos serão cobrados a parte e será preciso ver se vale a pena trocar a equipe que o atende pela da escola, você decide. Quem assistiu ao filme Prisioneiro do Silêncio, deve ter ficado impressionado com a preocupação do Estado nos EUA em por o garoto numa escola especial, eles literalmente forçam a mãe, aqui no Brasil não tem disto! O custo de uma escola de educação especial é alto e nenhuma destas fundações que você vê na TV (Fundação Abrinq, Fundação pelos Direitos da Criança etc) irão ajudar.Elas só trabalham com crianças carentes (penso que em breve será preciso importar pobres pois o que tem de fundação para eles) nossos filhos não estão inclusos.Se pensou em Direitos Humanos enganou-se novamente, a organização dos "Direitos Humanos" só atua no judiciário. Em São Paulo, a Secretaria Municipal de Educação é que responde pela educação especial.Você pode procurar o coordenador da sua região (norte, sul leste e oeste) e solicitar uma bolsa em uma das instituições conveniadas. Para isto deverá levar o laudo da criança e escolher uma escola da lista que vão lhe dar.Em outras cidades eu não sei como funciona. Sei que em Porto Alegre é super normal o estado custear uma escola especial (e boa) sem maiores problemas. Em todos os casos, boa sorte, com certeza você vai precisar!

Lucy Santos

sábado, 21 de fevereiro de 2009

ILUSÕES DO AMANHÃ


"Por que eu vivo procurando Um motivo de viver, Se a vida às vezes parece de mim esquecer? Procuro em todas, mas todas não são você Eu quero apenas viver Se não for para mim que seja pra você. Mas às vezes você parece me ignorar Sem nem ao menos me olhar Me machucando pra valer. Atrás dos meus sonhos eu vou correr Eu vou me achar, pra mais tarde em você me perder. Se a vida dá presente pra cada um O meu, cadê? Será que esse mundo tem jeito? Esse mundo cheio de preconceito. Quando estou só, preso na minha solidão Juntando pedaços de mim que caíam ao chão Juro que às vezes nem ao menos sei, quem sou. Talvez eu seja um tolo, Que acredita num sonho Na procura de te esquecer Eu fiz brotar a flor Para carregar junto ao peito E crer que esse mundo ainda tem jeito E como príncipe sonhador Sou um tolo que acredita ainda no amor."

PRÍNCIPE POETA (Alexandre Lemos - APAE) Este poema foi escrito por um aluno da APAE, chamado, pela sociedade, de excepcional. Excepcional é a sua sensibilidade! Ele tem 28 anos, com idade mental de 15 .

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Inclusão Escolar: Conhecer, Agir e Viver. Maria da Conceição Dias Magalhães.



O que vou relatar aqui é fruto da construção de uma prática referenciada no trabalho com pessoas portadoras de necessidades educacionais especiais, sejam elas alunos ou professores. Espero que meu relato possa ajudar aos que acreditam ou desejam um mundo mais inclusivo.
Sou professora do ensino fundamental e trabalho na Escola Municipal Antônia Ferreira, na periferia de Belo Horizonte. Esta escola possui 17 salas e funciona em três turnos. No primeiro, atende a crianças do segundo ciclo (9, 10 e 11 anos). No segundo, a crianças do primeiro ciclo (6, 7 e 8 anos) e, no noturno, o atendimento é para os jovens e adultos. Eventualmente este ano, a escola tem duas turmas do segundo ciclo no turno da tarde. Parte de seu alunado é de classe média baixa e parte é bem pobre.
É comum as pessoas estranharem o fato de eu ser cega e trabalhar em uma escola regular, alfabetizando alunos ditos "normais" e, entre eles, uma criança com paralisia cerebral que não fala e tem coordenação motora bastante comprometida. Vivemos hoje a busca de preparo ou a tentativa de se cumprir o imposto por lei quanto à inclusão dos portadores de necessidades específicas, como pessoas capazes de exercer sua cidadania em diferentes espaços, independente de terem ou não "perfeições" ou "imperfeições" físicas ou mentais.
Ser cega me mostrou que a escola não tem conseguido formar pessoas que sentem prazer na leitura, tal é e sempre foi a dificuldade que tive para conseguir ledores ao longo de minha vida estudantil ou profissional. Mostrou-me também como a leitura em voz alta é, para muitos, traumatizante e desritmada. Apontou-me a dificuldade que as pessoas que enxergam têm para descrever imagens, cenários ou espaços físicos. A falta de visão Atrasou minha vida escolar e profissional. Afastou-me de alguns e fortaleceu minha união com outros. Ensinou-me que o nosso mundo não é só imagens, cor e brilho. Enfim, me fez dar mais valor à vida e às relações humanas.
A conscientização de que a minoria da qual faço parte não é tão pequena assim e de que ela também pode ser produtiva me levou a procurar mais informações e encontrei na literatura e na pesquisa caminhos para minha vida profissional. Escolher um trabalho altamente visual exigiu muita fé e muita vontade de conseguir ser e fazer. Esta opção me levou à vivência de sentimentos extremos e dicotômicos, principalmente no início de minha vida profissional.
Por um lado, vivia a empolgação exagerada por qualquer avanço percebido em meus alunos e por outro, a frustração por ter consciência de que aqueles avanços eram insignificantes, tanto em relação aos meus ideais, quanto ao produto esperado pela escola.
A satisfação pessoal por estar construindo uma relação horizontal com alunos e pais era acompanhada pelo constrangimento de ser e de fazer tão diferente do ser e do fazer de meus pares de trabalho. Minhas vivências, leituras e os meus sonhos embasaram minha postura em sala de aula, o que me levou a procurar, fora de meu trabalho, pessoas que tinham a prática que eu almejava. Era preciso estudar, pesquisar, consultar, trocar experiências e avaliar com pessoas que tinham a mesma concepção de escola. Esta decisão me ajudou a avançar em meus ideais, mas também distanciou-me dos colegas de trabalho.
Minhas diferenças, necessidades e dificuldades me trouxeram sofrimento, constrangimento e muita busca de melhoria e superação. Aprendi a importância da organização, da pesquisa, dos estudos, da avaliação constante e principalmente dos registros na vida do professor, sobretudo se ele é diferente.
Alfabetizar exigiu de mim o que se exige de qualquer alfabetizador, ou seja, muito estudo sobre o tema e como a criança vivencia este processo; muita atenção aos conhecimentos prévios, interesses e avanços apresentados pelas crianças, ter claro e deixar claro para cada aluno que ler e escrever são habilidades construídas historicamente, fruto de necessidades culturais. Tudo isso misturado com amor, determinação, respeito e amizade.
Minhas experiências como estudante em escolas reculares ajudou-me a compreender melhor meus alunos "diferentes". Como eles, sempre fui uma pessoa "especial" junto aos meus grupos de convivência. Trabalhar com uma aluna portadora de paralisia cerebral me remeteu ao meu passado. Lembrei-me de minhas frustrações diante das inúmeras situações de querer e não poder, ou não conseguir, vivenciadas por mim ao longo de minha vida devido à acentuada deficiência visual e posterior cegueira. Recordei-me da grande ansiedade que sentia em muitos destes momentos e de quanto silenciosamente sofria e desejava que alguém adivinhasse meus pensamentos, se aproximasse e estendesse a mão.
O que hoje sei e aplico como profissional, aprendi buscando soluções para as dificuldades surgidas, adaptando e adquirindo materiais; planejando e improvisando com freqüência, de acordo com a necessidade ou mesmo por não poder contar com a ajuda de algumas colegas. Preparei-me procurando não aceitar, ou combatendo, as frustrações da dinâmica perversa da escola, com seus tempos estrangulados e a abundância de incredulidades.
Continuo porque sinto prazer, gosto de estar com meus alunos, de descobrir o que não sabem, de pensar em intervenções que podem ajudá-los a entender o que estão fazendo ou desenvolvendo. Sinto satisfação ao perceber seus avanços, ao sentir a auto-estima ou auto-confiança se desabrocharem. Eu me realizo com eles, me vejo neles, Cresço com eles. Por eles e com eles aprendi a me valorizar e ter um pouco mais de segurança no que faço. Espero que como eu, eles também consigam ser entendidos, queridos e aceitos.

Prof. Maria da Conceição Dias Magalhães.
Fonte: Texto apresentado na oficina "O Trabalho em Sala de Aula Envolvendo o Aluno com Deficiência Visual". Seminário "O Educador e o Processo de Inclusão - Diagnóstico da Educação Inclusiva no Ensino Fundamental em Belo Horizonte e Contagem" realizado nos dias 04 05 de abril de 2002 pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais - PUC/MG.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

O QUE É EDUCAÇÃO INCLUSIVA ? Profa. Dra. Leny Magalhães Mrech




1. Introdução A chamada Educação Inclusiva teve início nos Estados Unidos através da Lei Pública 94.142, de 1975 e, atualmente, já se encontra na sua segunda década de implementação. Há em todo Estados Unidos o estabelecimento de programas e projetos dedicados à Educação Inclusiva: 1) O departamento de Educação do Estado da Califórnia iniciou uma política de suporte às escolas inclusivas já implantadas; 2) O Vice- Presidente Al Gore criou uma Supervia de Informática direcionada à uma política de telecomunicações baseada na ampliação da rede de informações para todas as escolas, bibliotecas, hospitais e clínicas. 3) Há um cruzamento entre o movimento da Educação Inclusiva e a busca de uma escola de qualidade para todos; 4) Há propostas de modificações curriculares visando a implantação de programas mais adaptados às necessidades específicas das crianças portadoras de deficiência. Tendo sido dada uma ênfase especial no estabelecimento dos componentes de auto-determinação da criança portadora de deficiência. As equipes técnicas das escolas também sido trabalhadas para fornecer um atendimento mais adequado ao professor de classe comum. 5) Há o acompanhamento, através de estudos e pesquisas, a respeito dos sujeitos que passaram por um processo de educação inclusiva. Eles tem sido observados através da análise de sua rede de relações sociais, atividades de laser, formas de participação na comunidade, satisfação pessoal,etc. Um dos maiores estudos de follow-up é o da Universidade de Minnesota que apresenta um Estudo Nacional de Transição Longitudinal. 6) Também tem sido acompanhados os Serviços dos Programas de Educação que trabalham com a Educação Inclusiva. 7) Boa parte dos estados norteamericanos estão aplicando a Educação Inclusiva : Estado de New York, Estado de Massachussets, Estado de Minnesota, Estado de Daytona, Estado de Siracusa, Estado de West Virgínia, etc. Fora dos Estados Unidos a situação também não é diferente. O mais conhecido centro de estudos a respeito de Educação Inclusiva é o CSIE( Centre for Studies on Inclusive Education ) da Comunidade Britânica, sediado em Bristol. É dele que tem partido os principais documentos a respeito da área da Educação Especial: 1. O CSIE - International Perspectives on Inclusion; 2. O Unesco Salamanca Statement(1994); o UN Convention on the Rights of the Child(1989); o UN Standard Rules on the Equalisation of Opportunities for Persons with Disabilities(1993). Um dos documentos mais importantes atualmente é o Provision for Children with Special Educational Needs in the Asia Region que inclui os seguintes países: Bangladesh, Brunei, China, Hong Kong, Índia, Indonésia, Japão, Coréia, Malásia, Nepal, Paquistão, Filipinas, Singapura, Sri Lanka e Tailândia. Mas, há programas em todos os principais países do mundo: França, Inglaterra, Alemanha, México, Canadá, Itália, etc.2. A Escola Inclusiva Por EDUCAÇÃO INCLUSIVA SE ENTENDE O PROCESSO DE INCLUSÃO DOS PORTADORES DE NECESSIDADES ESPECIAIS OU DE DISTÚRBIOS DE APRENDIZAGEM NA REDE COMUM DE ENSINO EM TODOS OS SEUS GRAUS. Da pré-escola ao quarto grau. Através dela se privilegiam os projetos de escola, que apresenta as seguintes características: 1. Um direcionamento para a Comunidade - Na escola inclusiva o processo educativo é entendido como um processo social, onde todas as crianças portadoras de necessidades especiais e de distúrbios de aprendizagem têm o direito à escolarização o mais próximo possível do normal. O alvo a ser alcançado é a integração da criança portadora de deficiência na comunidade. 2. Vanguarda - Uma escola inclusiva é uma escola líder em relação às demais. Ela se apresenta como a vanguarda do processo educacional. O seu objetivo maior é fazer com que a escola atue através de todos os seus escalões para possibilitar a integração das crianças que dela fazem parte. 3. Altos Padrões - há em relação às escolas inclusivas altas expectativas de desempenho por parte de todas as crianças envolvidas. O objetivo é fazer com que as crianças atinjam o seu potencial máximo. O processo deverá ser dosado às necessidades de cada criança. 4. Colaboração e cooperação - há um privilegiamento das relações sociais entre todos os participantes da escola, tendo em vista a criação de uma rede de auto-ajuda. 5. Mudando papéis e responsabilidades - A escola inclusiva muda os papéis tradicionais dos professores e da equipe técnica da escola. Os professores tornam-se mais próximos dos alunos, na captação das suas maiores dificuldades. O suporte aos professores da classe comum é essencial, para o bom andamento do processo de ensino-aprendizagem. 6. Estabelecimento de uma infraestrutura de serviços - gradativamente a escola inclusiva irá criando uma rede de suporte para superação das suas maiores dificuldades. A escola inclusiva é uma escola integrada à sua comunidade. 7. Parceria com os pais - os pais são os parceiros essenciais no processo de inclusão da criança na escola. 8. Ambientes educacionais flexíveis - os ambientes educacionais tem que visar o processo de ensino-aprendizagem do aluno. 9. Estratégias baseadas em pesquisas - as modificações na escola deverão ser introduzidas a partir das discussões com a equipe técnica, os alunos , pais e professores. 10. Estabelecimento de novas formas de avaliação - os critérios de avaliação antigos deverão ser mudados para atender às necessidades dos alunos portadores de deficiência. 11. Acesso - o acesso físico à escola deverá ser facilitado aos indivíduos portadores de deficiência. 12. Continuidade no desenvolvimento profissional da equipe técnica - os participantes da escola inclusiva deverão procurar dar continuidade aos seus estudos, aprofundando-os.3. O estabelecimento dos suportes técnicos Deverão ser privilegiados os seguintes aspectos na montagem de uma política educacional de implantação da chamada escola inclusiva: 1. Desenvolvimento de políticas distritais de suporte às escolas inclusivas; 2. Assegurar que a equipe técnica que se dedica ao projeto tenha condições adequadas de trabalho. 3. Monitorar constantemente o projeto dando suporte técnico aos participantes, pessoal da escola e público em geral. 4. Assistir as escolas para a obtenção dos recursos necessários à implementação do projeto. 5. Aconselhar aos membros da equipe a desenvolver novos papéis para si mesmos e os demais profissionais no sentido de ampliar o escopo da educação inclusiva. 6. Auxiliar a criar novas formas de estruturar o processo de ensino-aprendizagem mais direcionado às necessidades dos alunos 7. Oferecer oportunidades de desenvolvimento aos membros participantes do projeto através de grupos de estudos, cursos, etc. 8. Fornecer aos professores de classe comum informações apropriadas a respeito das dificuldades da criança, dos seus processos de aprendizagem, do seu desenvolvimento social e individual. 9. Fazer com que os professores entendam a necessidade de ir além dos limites que as crianças se colocam, no sentido de levá-las a alcançar o máximo da sua potencialidade. 10. Em escolas onde os profissionais tem atuado de forma irresponsável, propiciar formas mais adequadas de trabalho. Algumas delas podem levar à punição dos procedimentos injustos. 11. Propiciar aos professores novas alternativas no sentido de implementar formas mais adequadas de trabalho.4.O conceito de Inclusão A inclusão é : - atender aos estudantes portadores de necessidades especiais na vizinhanças da sua residência. - propiciar a ampliação do acesso destes alunos às classes comuns. - propiciar aos professores da classe comum um suporte técnico. - perceber que as crianças podem aprender juntas, embora tendo objetivos e processos diferentes - levar os professores a estabelecer formas criativas de atuação com as crianças portadoras de deficiência - propiciar um atendimento integrado ao professor de classe comum5. O conceito de inclusão não é - levar crianças às classes comuns sem o acompanhamento do professor especializado - ignorar as necessidades específicas da criança - fazer as crianças seguirem um processo único de desenvolvimento, ao mesmo tempo e para todas as idades - extinguir o atendimento de educação especial antes do tempo - esperar que os professores de classe regular ensinem as crianças portadoras de necessidades especiais sem um suporte técnico.6. Diferenças entre o princípio da normalização e da inclusão O princípio da normalização diz respeito a uma colocação seletiva do indivíduo portador de necessidade especial na classe comum. Neste caso, o professor de classe comum não recebe um suporte do professor da área de educação especial. Os estudantes do processo de normalização precisam demonstrar que são capazes de permanecer na classe comum. O processo de inclusão se refere a um processo educacional que visa estender ao máximo a capacidade da criança portadora de deficiência na escola e na classe regular. Envolve fornecer o suporte de serviços da área de Educação Especial através dos seus profissionais. A inclusão é um processo constante que precisa ser continuamente revisto.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Um tiro no preconceito - Claudia Werneck



"Tia, meu amigo nasceu com seis dedos. Minha prima toma injeção todo dia, ela tem diabetes. A vovó faz xixi pela barriga. Aquele menino perdeu muita prova porque tem falta de ar. Sente esse caroço na minha cabeça que a mamãe esconde com o cabelo..."
Adulto tem pavor de assuntos relacionados à deficiência. Acha até que dá azar. Criança não, quer saber sobre o que não entende: diferenças individuais. Encontra as respostas de que necessita? Difícil. Pais e professores costumam achar natural não terem informações corretas sobre doenças crônicas, distúrbios neuro-psico-motores, síndromes genéticas e situações que levam a incapacidades.
Desde 1992 me especializo em levar informações relacionadas à deficiência para adultos e crianças. Percebi que informação correta para o adulto apenas civiliza seu preconceito. Mas o sentimento continua lá, esperando para dar o bote. Para minimizar o preconceito será preciso impedir que ele se instale. Daí a importância da literatura infantil, arma poderosa e pouco utilizada no combate a qualquer discriminação.
Passei por uma experiência decisiva. Em 1994, escrevi a coleção Meu Amigo Down. Ao divulgá-la nas escolas eu era torpedeada pelos alunos com perguntas sobre anormalidades. Tornei-me a deixa para que abordassem assuntos que os afligiam e os deixavam curiosos. Fiquei aflita com a aflição deles. Certa de que criança tem direito de ter informação de qualquer natureza numa linguagem acessível, escrevi o livro Um amigo diferente? (Editora WVA).
O livro conta a história de um amigo que afirma ser diferente. Muito ou pouco? De que jeito? A cada página, o amigo imaginário dá pistas novas, atiçando a imaginação da criançada. E o leitor vai se deparando com temas pouco abordados como hemofilia, artrite, diabetes, doença renal, deficiências físicas, sensorial e mental, entre outros. Mas que ninguém se espante. O livro é alegre, colorido e divertido.
Desejo oficializar nas salas de aula e nos lares brasileiros a discussão sobre as diferenças individuais. Torço para familiares e educadores se interessarem por esses temas. Ou persistiremos no erro de construir cidadãos pela metade?
O preconceito contra os diferentes nasce na infância. No jantar, o filho pergunta: "pai o que é ostomia?" O adulto responde: "não pensa nisso, é muito triste, come senão a comida vai esfriar". Sem resposta, e vendo sua dúvida desvalorizada, a criança se cala. O que deveria ser esclarecido vira mistério, tabu.
Eu sei, nada é tão simples. Mas por não termos sido educados para entender a diversidade como situação natural, hoje relutamos em obedecer leis e seguir regras sociais que dêem às pessoas com deficiência um direito assegurado na Constituição Federal: a cidadania.
Por isso, defendo a sociedade inclusiva. Nela, não haverá espaço para aceitar crianças e adolescentes com deficiências e depois bater no peito ou dormir com a sensação de termos sido bonzinhos. Na sociedade inclusiva ninguém é bonzinho. Cada cidadão é consciente de sua responsabilidade na construção de um mundo que dê oportunidade para todos. Jovens crescerão convictos de que se relacionar com pessoas deficientes não é favor, mas troca.
Nesse ideal de inclusão, difundido internacionalmente nos últimos anos, felizes das escolas que se propuserem a ser transformadoras, empenhando-se em formar cidadãos mais éticos, capazes de respeitar aqueles que são - ou estão - diferentes. Acredito na força de um lar no qual os adultos, questionados sobre temas que lhes incomodem, abram seus corações e seus dicionários com o mesmo orgulho que orientam os filhos sobre política ou economia.
Portadores de diferenças querem ser levados à sério. Assumirão sua condição com cada vez mais dignidade. Se nós, portadores de diferenças menores, permitirmos... Como diz o personagem do livro Um amigo diferente?: "Você está preocupado comigo? Obrigado. Mas eu vou em frente. Essa é a minha vida".

Claudia Werneck é jornalista e escritora, responsável pelo projeto. (Jornal do Brasil, Sábado, 14/09/96).

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Rebecca. Oliver Sacks.





Rebecca já não era mais criança quando a encaminharam para nossa clínica. Estava com dezenove anos, mas como disse sua avó, era "igualzinha a uma criança em alguns aspectos". Ela não era capaz de se localizar andando pelo quarteirão, não conseguia abrir confiantemente uma porta com a chave (nunca “via” como a chave se encaixava, e nunca parecia aprender). Fazia confusão entre esquerda e direita, às vezes vestia-se errado - punha as roupas do avesso, a parte da frente nas costas, sem parecer notar ou, se notasse, sem Ter capacidade para colocá-las do jeito correto. Podia passar horas tentando enfiar a mão ou o pé na luva ou sapato errado - parecia, nas palavras de sua avó, “não ter senso de espaço”. Ela era desajeitada e todos os seus movimentos eram descoordenados - uma “estonteada”, dizia um relatório, com “estupidez motora”, dizia outro embora ao dançar toda a sua falta de jeito desaparecesse). Rebecca tinha uma fenda palatina parcial que provocava assobios quando ela falava, dedos curtos e nodosos, com unhas rombudas e deformadas, e uma forte miopia degenerativa que requeria o uso de óculos com lentes muito grossas - todos estigmas do mesmo problema congênito que lhe causara defeitos cerebrais e mentais.
Dolorosamente tímida e retraída, ela sentia que era, que sempre fora, “uma figura ridícula”. Mas Rebecca era capaz de Ter vínculos afetivos ternos, profundos, até mesmo exaltados. Tinha um amor imenso pela avó, que a criara desde os três anos (quando ficou órfã de pai e mãe). Adorava a natureza e, quando a levavam aos parques e jardins botânicos da cidade, passava ali muitas horas felizes. Também era grande apreciadora de histórias, embora não conseguisse aprender a ler ( apesar de tentativas assíduas e mesmo frenéticas); implorava à avó e a outras pessoas que lessem pra ela. “Rebecca tem fome de histórias”, disse sua avó; e esta, felizmente, adorava ler histórias e tinha uma bela voz para a leitura, que mantinha Rebecca extasiada. E não histórias - poemas também. A poesia parecia ser para Rebecca uma necessidade ou fome descomunais - uma forma necessária de alimento, de realidade para sua mente. A natureza era bela, porém muda. Ela precisava que o mundo lhe fosse reapresentado em imagens verbais, em linguagem, e parecia não Ter dificuldades para acompanhar as metáforas e símbolos inclusive de poemas muito profundos, em um contraste marcante com sua incapacidade para as proposições e instruções simples.
A linguagem do sentimento, do concreto, das imagens e símbolos, formavam um mundo que ela amava e no qual, em um grau notável, era capaz de penetrar. Embora fosse inépta conceitualmente (e “proposicionalmente”), ela se sentia à vontade com a linguagem poética, e era ela própria, de um modo vacilante, enternecedor, uma espécie de poeta “primitiva” instintiva. Metáforas, figuras de linguagem, analogias surpreendentes vinham-lhe com naturalidade, embora de um modo imprevisível, na forma de súbitas exclamações ou alusões poéticas. Sua avó tinha uma religiosidade serena, e isso também acontecia com Rebecca: ela amava o acender das velas do sabá, as bênçãos e orações que entremeavam o dia judaico; adorava ir à sinagoga, onde era estimada (e vista como filha de Deus, uma espécie de inocente, uma ingênua santa), e compreendia totalmente a liturgia, os cânticos, preces, ritos e símbolos que compões o serviço ortodoxo. Tudo isso lhe era possível, acessível, prezado, apesar de sues graves problemas perceptivos e espaço - temporais e das enormes deficiências em todas as capacidades esquemáticas - ela não era capaz de calcular o troco, de fazer os cálculos mais simples, não conseguia aprender a ler ou escrever e sua média em testes de QI jamais ultrapassava sessenta (embora se saísse notavelmente melhor nas partes verbais do que nas de execução do teste).
Assim, ela era "débil mental", "tola", "estúpida", ou parecera ser, e assim fora chamada, durante toda a sua vida, porém possuía uma capacidade poética inesperada, estranhamente comovente. Superficialmente, ela era um amontoado de incapacidades e deficiências, com as intensas frustrações e ansiedades que as acompanham; nesse nível ela era, e sentia que era, uma deficiente mental - não dispondo das habilidades sem esforço, das afortunadas capacidades das outras pessoas; mas em algum nível mais profundo não havia a sensação de invalidez ou incapacidade, mas um sentimento de calma e integridade, de estar plenamente viva, de ser uma alma profunda e sublime, e igual a todas as demais. Intelectualmente, portanto, Rebecca sentia-se deficiente; espiritualmente, sentia-se um ser rico e completo. Quando a encontrei pela primeira vez - desajeitada, desengonçada, atrapalhadíssima - eu a vi meramente, ou inteiramente, como uma perda, uma criatura arruinada cujos problemas neurológicos eu podia detectar e dissecar com precisão: uma infinidade de apraxias e agnosias, um amontoado de danos e esgotamentos sensório-motores, limitações dos esquemas e conceitos intelectuais, semelhantes (pelos critérios de Piaget) às de uma criança de oito anos.
Uma infeliz, pensei comigo, talvez com uma habilidade única uma aberração, um inesperado dom, o da fala: um simples mosaico de funções corticais superiores, esquemas piagetianos - a maioria deles prejudicada. Na vez seguinte em que a vi, tudo foi muito diferente. Não era uma situação de teste, de "avaliação" na clínica. Saí para dar uma volta - era um lindo dia de primavera - dispondo de alguns minutos antes de começar o expediente na clínica, e então encontrei Rebecca, sentada em um banco, fitando serenamente a vegetação primaveril, com óbvio deleite. Sua postura nada tinha de falta de jeito que tanto me impressionara antes. Ali sentada, com um vestido leve, o rosto sereno e um tênue sorriso, ela me lembrou uma das moças de Tchekov - Irene, Anya, Sonya, Nina - vista contra o pano de fundo do jardim de cerejeiras tchekoviano. Ela poderia ser qualquer moça apreciando um belo dia de primavera. Essa foi minha visão humana, que contrastava com a neurológica. Quando me aproximei, ela ouviu meus passos e se virou, lançou-me um largo sorriso e gesticulou, sem uma palavra. "Veja o mundo", parecia dizer. "Que lindo é". E então irromperam, em arrancos jacksonianos, exclamações repentinas, singulares, poéticas: “primavera”, “nascimento”, “crescimento”, "despertar, "ganhar a vida", "estações", "tudo em seu tempo". Vi-me pensando no Eclesiastes: "Tudo tem o seu tempo, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Tempo de nascer de morrer, tempo de plantar e tempo [...]".
Era isso que Rebecca, no seu jeito desconexo, estava exclamando - uma visão das estações, dos tempos, como a do Pregador. "Ela é uma Eclesiastes retardada", pensei comigo. E, nessa frase, as duas visões que eu tinha dela - como uma deficiente mental e uma simbolista - encontraram-se, colidiram e se fundiram. Ela tivera resultados consternadores no teste que, em certo sentido, destinava-se, como todos os testes neurológicos e fisiológicos, não só a revelar, a trazer à luz as deficiências, mas a decompor a pessoa em funções e déficits. Ela se desintegrara horrivelmente nos testes formais, mas agora estava misteriosamente "coesa" e composta. Por que ela estava tão fragmentada antes, como podia estar tão coesa agora? Tive uma forte sensação de que havia dois modos totalmente diversos de pensamento, ou de organização, ou de ser. O primeiro, esquemático - que percebe padrões, resolve problemas - era o que fora testado, e no qual ela fora considerada tão deficiente, tão desastrosamente em falta.
Mas os testes não haviam fornecido indício algum de qualquer coisa que não fossem déficits, de qualquer coisa, por assim dizer, além de seus déficits. Eles não me haviam dado indícios das capacidades positivas de Rebecca, de sua habilidade para perceber o mundo real - o mundo da natureza, e de talvez da imaginação - como um todo coerente, inteligível, poético: sua capacidade de vê-lo, de pensá-lo e (quando possível) vivê-lo. Não me haviam mostrado sinais do mundo interior de Rebecca, que claramente era coeso e coerente, e podia ser apreendido por algo diferente de uma série de problemas ou tarefas. Mas qual era o princípio harmonizador que podia dar a Rebecca sua coerência (evidentemente era algo não esquemático)? Surpreendi-me pensando em seu gosto por histórias, pela composição e coerência narrativa. Será possível, pensei, que este ser diante de mim - simultaneamente uma moça encantadora e uma débil mental, um acidente cognitivo - pode usar um estilo narrativo (ou dramático) para compor e integrar um mundo coerente, no lugar do estilo esquemático que, nela, é tão deficiente e não funciona?
E, assim pensando, lembrei-me dela dançando, de como isso conseguia organizar seus movimentos que, em outra ocasiões, eram tão desconexos e desajeitados. Nossos testes, nossas técnicas, pensei, enquanto a observava sentada no banco - apreciando uma visão da natureza não apenas simples, mas sagrada - , nossas técnicas , nossas "avaliações" são ridiculamente inadequadas. Só nos mostram déficits, não capacidades; mostram apenas problemas para resolver e esquemas, quando precisamos ver música, narrativa, brincadeira, um ser conduzindo-se espontaneamente em seu próprio modo natural. Rebecca, tive a impressão, era completa e intacta como um ser "narrativo", em condições que lhe permitam organizar-se de um modo narrativo; e saber disso era muito importante, pois permitia que a víssemos, e a seu potencial, de uma maneira muito diferente da imposta pelo método esquemático. Talvez tenha sido bom eu Ter visto casualmente Rebecca em suas duas facetas tão diversas - tão danificada e incorrigível em uma, tão cheia de promessa e potencial na outra - e também que ela tenha sido uma das primeiras pacientes que atendi em nossa clínica, pois o que vi nela, o que ela me mostrou, passei a ver em todos eles.
À medida que continuei a vê-la, ela pareceu ganhar profundidade. Ou talvez, cada vez mais, ela revelasse, ou eu viesse respeitar, seu íntimo. Não era um íntimo totalmente feliz - nenhum íntimo é - mas era predominantemente feliz durante a maior parte do ano. Mas em novembro sua avó morreu, e a luz, a alegria que ela expressara em abril transformaram-se no mais intenso pesar e escuridão. Ela ficou arrasada, mas portou-se com grande dignidade. Dignidade e profundidade ética acrescentaram-se nesse momento, formando um grave e duradouro contraponto ao ser iluminado, lírico, que eu vira especialmente antes. Fui visitá-la assim que soube da notícia, e ela me recebeu com grande dignidade, mas gelada de tristeza, em seu quartinho na casa agora vazia. Sua fala estava novamente em arrancos, "jacksoniana", com expressões breves de dor e lamento. "Por que ela teve que ir?", ela chorou, e depois acrescentou: "Estou chorando por mim, não por ela". E então, depois de uma pausa: "Vovó está bem. Ela foi para sua casa eterna". Casa eterna! Seria esse um símbolo dela própria ou uma lembrança inconsciente do Eclesiastes, ou uma alusão a este? "Estou com tanto frio", queixou-se, encolhendo-se toda. "Não é lá fora, é inverno aqui dentro. Frio como a morte", ela acrescentou. "Ela era parte de mim. Uma parte de mim morreu com ela". Ela era completa em seu luto - trágica e completa -, naquele momento não havia absolutamente a sensação de ela se uma "deficiente mental". Passada meia hora, ela degelou, recobrou um pouco de sua vivacidade e animação, comentou: "É inverno. Eu me sinto morta. Mas sei que a primavera virá de novo". A superação do pesar foi lenta, mas bem-sucedida, como Rebecca, mesmo nas piores horas, havia previsto. Nisso foi de grande ajuda uma tia-avó que a compreendeu e apoiou, uma irmã da avó de Rebecca que foi morar com ela. Muito contribuíram também a sinagoga e a comunidade religiosa, sobretudo os ritos do shiva e o status especial conferido a ela por Ter sido quem mais sofreu com a perda, a principal enlutada.
Também foi útil, talvez, o fato de ela falar livremente comigo. E além disso, uma grande ajuda veio de seus sonhos, os quais ela relatou com animação e claramente marcaram estágios na superação do pesar. Assim como me recordo dela com Nina ao sol de abril, também me lembro dela, esboçada com trágica nitidez, no escuro novembro daquele ano, em pé num desolado cemitério de Queens, recitando o Kaddish diante da sepultura da avó. As preces e histórias bíblicas sempre lhe haviam despertado o interesse, atendendo ao lado alegre, "abençoante" de sua vida. Agora, nas preces do funeral, no salmo 103 e sobretudo no Kaddish, ela encontrou as únicas palavras certas para lhe trazer consolo e expressar sua tristeza. Nos meses decorridos entre a primeira vez em que a vi, em abril, e a morte de sua avó, em novembro, Rebecca - como todos os nossos "clientes" (um termo detestável que na época estava entrando em voga, por ser supostamente menos degradante que "pacientes") - foi pressurosamente mandada para uma série de workshops e aulas, como parte de nosso Incentivo ao Desenvolvimento Cognitivo (também estes eram termos da moda na época). Não funcionou com Rebecca, não funcionou com a maioria deles. Acabei percebendo que não era aquilo que se devia fazer, pois nós os estávamos lançando diretamente contra suas limitações, como já fora feito, em vão, e muitas vezes ao ponto de crueldade, durante toda a vida daquelas pessoas. Dávamos demasiada atenção aos defeitos de nossos pacientes, como Rebecca foi a primeira a me mostrar, e pouquíssima atenção ao que estava intacto ou preservado. Usando aqui mais um termo do jargão, estávamos preocupados demais com a "defectologia" e muito pouco com a "narratologia", a negligenciada e necessária ciência do concreto. Rebecca evidenciou, com ilustrações concretas, com sua própria pessoa, as duas formas de pensamento e mente totalmente deferentes, separadas, a "paradigmática" e a "narrativa" (na terminologia de Bruner). E, embora igualmente naturais e inatas na mente humana em desenvolvimento, a narrativa vem primeiro, tem prioridade espiritual. Crianças muito pequenas apreciam e pedem histórias, são capazes de entender assuntos complexos apresentados em forma de histórias, quando suas capacidades de entender conceitos gerais, paradigmas, são quase inexistentes. É este poder narrativo ou simbólico que proporciona um senso de mundo - uma realidade concreta na forma imaginativa de símbolos e histórias - quando o pensamento abstrato nada pode fornecer.
Uma criança entende a Bíblia antes de entender Euclides. Não porque a Bíblia seja simples (pode-se afirmar o contrário), mas porque ela é apresentada de maneira simbólica e narrativa. E nesse aspecto Rebecca, aos dezenove anos, ainda era, como dissera sua avó, "igualzinha a uma criança. Igual a uma criança, mas não uma criança, pois ela era adulta. (O termo "retardado" sugere uma criança permanente, o termo "deficiente mental", um adulto deficiente; ambos os termos, ambos os conceitos, têm muito de verdade e muito de falsidade.) Em Rebecca - e em outros deficientes a quem se permite ou se incentiva um desenvolvimento pessoal - as capacidades emocionais, narrativas e simbólicas podem desenvolver - se fortes e exuberantes, e podem produzir (como em Rebecca) uma espécie de artista instintivo, enquanto as capacidades paradigmáticas ou conceituais, manifestamente fracas desde o princípio, progridem com demasia lentidão e dificuldade, sendo capazes tão somente de um desenvolvimento muito limitado e tolhido. Rebecca percebia isso perfeitamente, como me demonstrou com grande clareza logo no primeiro dia em que a vi, quando falou sobre sua falta de jeito e mencionou que seus movimentos desarmônicos e desorganizados tornavam-se bem organizados, harmônicos e fluentes com a música, e quando me mostrou o quanto ela própria adquiria harmonia graças a um cenário natural, um cenário com unidade e sentido orgânico, estético e dramático. De um modo muito súbito, depois da morte da avó, ela foi clara e decidida: "não quero mais aulas, nem workshops", declarou. "Eles não me ajudam em nada. Não fazem nada para me dar coerência". E então, com aquele talento para o modelo ou metáfora apropriados que eu tanto admirava e que se desenvolvera nela tão bem a despeito de seu reduzido QI, ela fitou o tapete do consultório e disse: "Sou uma espécie de tapete vivo. Preciso de um padrão, e um desenho, como esse que você vê no tapete. Eu me desmancho, me desfaço se não houver um desenho". Olhei para o tapete ao ouvir Rebecca, e me peguei pensando na famosa imagem de Sherrington que compara a mente/ cérebro com um "tear encantado", tecendo padrões que sempre se desmancham mas que sempre têm um significado. Pensei: é possível Ter um tapete sem um desenho? Pode-se Ter o desenho sem o tapete (mas isso era como Ter o sorriso sem o Gato de Alice)? Um tapete "vivo", como era Rebecca, precisava Ter ambos - e ela especialmente, não dispondo de estrutura esquemática ( a urdidura e a trama, o entrelaçamento do tapete, por assim dizer), podia realmente se desmanchar sem um desenho (a estrutura cênica ou narrativa do tapete). "Eu preciso Ter significado”, ela prosseguiu. "As aulas, as tarefas eventuais não têm significado... "Eu gosto mesmo é de teatro", ela acrescentou, suplicante. Tiramos Rebecca dos workshops que ela detestava e demos um jeito de inscrevê-la em um grupo de teatro especial. Ela adorou - isso lhe deu coesão; ela se saiu espantosamente bem: tornou-se uma pessoa completa, equilibrada, fluente, com estilo, em cada papel. E agora, quem vê Rebecca no palco, pois o teatro e o grupo teatral logo se tornaram sua vida, nunca imaginaria que ela era deficiente mental.

Fonte: Sacks, Oliver. "O homem que confundiu sua mulher com um chapéu". São Paulo: Companhia das Letras, 1999.